Setembro de 2015. Artur tinha 7 dias de nascido. Eu estava inchada, com aquela barriga pós-parto, peitos vazando leite pela casa, dor no corte da cesárea, uma angústia inexplicável enquanto meus hormônios tentavam voltar ao normal e minha cabeça tentava entender quem eu era depois daquele parto, daquela morte da Carol de antes e o nascimento da mãe, de um filho, de um pai, de uma família. Com um vestido preto que era das poucas peças que me serviam e pés descalços, eu amamentava o Artur na sala minutos depois dos meus tios e primos se despedirem. Começamos a sentir um cheiro bem forte de algo queimando. Artur largou o peito, desmaiado de sono, enquanto Anderson, curioso como sempre, foi à varanda olhar... Cheiro estranho e forte. E então vimos uma cortina de fumaça em frente ao nosso prédio. Densa, cinza escuro. Não houve tempo de pensar: levantei como estava, Anderson colocou nossas gatas na caixa de transporte e saímos do apartamento. Eu tremia da cabeça aos pés. Artur dormia. Quando estávamos chegando na escada, nossos vizinhos de frente correram até nós e avisaram: estava tudo bem, apesar de haver um incêndio no prédio em frente. Eu chorava e segui querendo descer. Mas nosso prédio estava OK. Anderson foi à janela deles olhar e era possível ver as labaredas num apartamento do outro lado da rua. Enquanto isso meu celular tocava, eram meus tios querendo avisar que estávamos seguros. Os caminhões de bombeiro foram chegando, o prédio em frente foi evacuado, a polícia chegou. Eu chorava, chorava, chorava. Soluçava. Nem sei quanto tempo demorou até me tranquilizar.
Dias depois, conversando com o Anderson sobre o susto que tomamos, perguntei a ele o que teria levado do nosso apê caso tivéssemos que sair às pressas. Chegamos à conclusão que nada. NA-DA. Nada além de nós mesmos. Eu, ele, nosso filho, nossas gatas. De pés descalços e vestido velho. Documentos a gente tira de novo. Roupas, a gente compra, ganha. Aquela mesa cara que desejamos tanto tempo, perdeu o sentido. As obras de arte e design. Os livros todos. Os produtos de beleza, as louças, os acessórios de cozinha, as fotos, os filmes, as coleções de revista. N-A-D-A.
Falamos e contamos desse episódio para algumas pessoas nesse meio tempo. Sempre que conto, sinto a lembrança daquele frio na barriga. Nós não vivemos uma tragédia, graças a Deus. Ninguém se feriu e nem prejuízos materiais nós tivemos. Mas ficaram lições. E como todas as lições, às vezes a gente esquece, deixa de lado. Então escrevo para não esquecer e dividir essa epifania tão simples, singela, mas tão valiosa.
Quanto valem as pessoas, quanto vale seu dinheiro, seus bens? Quanto vale sua saúde, o amor, o tempo? Não acho que o segredo seja parar de trabalhar e virar hippie (ok se isso funciona para você) mas é dar o devido valor às coisas e às pessoas, fazer escolhas conscientes e realmente priorizar o que é importante. Pé descalço, vestido velho, marido, filho e gatas: isso é ouro. O que você levaria?