segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Te julguei, Patrícia

Patrícia,
Eu te julguei. Assumo. E não foi uma vez só, não. Julguei quando você descobriu que estava grávida, mesmo tomando o anticoncepcional direitinho. Como é que engravida assim? Daí eu descobri que mesmo com poucos dias (DIAS) de pausa, bem, engravida-se, sim. E que a pílula tem chance de erro, né?
Te julguei quando te vi cansada, descabelada, mal arrumada e mal humorada num aniversário. Poxa. Não é possível que um bebê dê tanto trabalho assim, né? Tanto trabalho que mal dá tempo de uma mãe se vestir decentemente, passar uma escova nesse cabelo que não vê corte há um tempo, passar um rímel? É. Dá trabalho. Se dá! Descobri na própria pele. Vesti o bebê duas vezes, porque ele conseguiu se sujar em tempo recorde. Fiz a mala, separei troca de roupa, fralda, um casaquinho, a lancheira, fruta, biscoito. Copo de água, né?, porque vai que lá não tem água. Enquanto o pai dele tomava o banho dele e escolhia a camiseta, eu tava nessa funça, e aí, veja só, não me sobrou tempo de lavar e escovar o cabelo. Tamo pronto, amor? Tamo. Epa, fez cocô. Troca de novo a fralda. E meu rímel, que nem sei onde é que tá!?
Te julguei, Patrícia, quando você ficou correndo atrás do bebê o tempo-todo naquele churrasco. O bebê não aceita o colo do pai, né? Deve ser culpa sua. Apegado! E o bebê subia e descia do brinquedo, no vento, e você mal comeu um sanduíche de linguiça. Cerveja nem pensar, né, porque o bebê mama em livre demanda e quando vê seu copo ainda fica interessado em dar um gole. Pra evitar a fadiga, vamos de água, mesmo. Agora eu entendo. Entre uma mordida e outra, você deixava o pão ali porque uma criança mais velha empurrou o seu filho, e vice-versa. Caiu, ralou, quis mexer no lixo, quis sair do prédio. Poxa, Patrícia, você não deixava a criança livre. Mas se você deixasse, eu te julgaria: mãe relapsa. Na volta, cadê o pão? Nem linguiça.
Te julguei quando você decidiu amamentar depois de um ano. Será que criança precisa mesmo disso? Mas hoje aplaudo de pé sua determinação. Taí uma decisão que é e era só SÓ SÓ! sua. Eu agora entendo. Do alto da minha falta de empatia, com meu olhar sereno de grávida que mal sabe o que está por vir: eu julguei. Mas hoje eu sei: entrei pro teu time, sem nem perceber direito. Afinal, a maternidade é dinâmica... Dinâmica como um tsunami em série. To (ou sou?) descabelada, cansada, mal vestida, sem rímel nem batom, sem comer nem dormir direito. Tamo junta, dá aqui um abraço. Desculpe. Desculpe mesmo, Patrícia. Espero não ter mandado energias negativas com meu olhar julgador. Porque eu recebo uns olhares, que, olha! Haja!
Outro dia nos vimos e você pintou o cabelo. Finalmente, né? Não leia com tom julgador. Porque agora eu te entendo. Acho que fui no salão na semana que o meu nasceu e hoje em dia, é fazer a unha pá-pum e olhe-lá. Mas o brilho no teu cabelo e, principalmente, o brilho no teu olhar me ajudaram, sabia? Te vi, te olhei, e li: "eu sobrevivi". Eu chego lá. Eu chego aí.

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