quinta-feira, 19 de outubro de 2017

MBA da maternidade

No dia 20 de janeiro de 2015 eu recebi uma notícia impressionante. Tinha sido aprovada no maior e mais complexo curso de formação que um ser humano pode aplicar: ia ser mãe. Comecei a primeira parte do programa praticando fé e confiança, porque muitas gestações se perdem no comecinho. Eu não tinha planejado entrar tão logo nessa empreitada, então estava assustada e um tanto temerosa. Semanas foram passando e passei a encarar outro tipo de desafio: aceitar que meu corpo já tinha começado a mudar e incluir no cardápio alimentos que jamais gostei, como limão e água de coco, e manobrar enjoos e um sono inacreditável.

Na segunda fase, iniciei o módulo de pesquisa e planejamento. Ouvi muitos comentários e opiniões, em sua grande maioria sem serem solicitados, mas comecei a separar o joio do trigo e entender o que seria importante para o sucesso do meu projeto. Nesse momento, o projeto ganhou nome: Bebê Artur. Listei as informações levantadas nas pesquisas e o planejamento começou, com o que eu precisava ter ou providenciar para dar andamento às próximas fases. Foi surpreendente: peito, colo e amor são recursos intangíveis e sem custo, e já vêm de fábrica, o que deixava tudo mais tranquilo. Ainda assim, muitas mães não usam esses recursos por N motivos. Não há pesquisa científica que prove, por exemplo, que colo demais faz mal.

Nessa fase também consegui um berço emprestado, e ganhei e comprei roupinhas. Lá pro sétimo mês, recebi a apostila do módulo seguinte, de dificuldade nível máximo. Exercício da paciência. Eu precisava de no mínimo um 9 para passar de fase, e até então, em 27 anos, só tinha alcançado notas 3 ou 4 no quesito. Para aplacar um pouco a pressão, nessa fase é liberado organizar um petit comite chamado "chá de bebê", onde você, com corpo totalmente alterado, é mimada por todos e ouve comentários bastante positivos como "você vai conhecer o amor maior do mundo", mas também coisas cruéis como "se prepara, você nunca mais vai dormir". Essa é comum, e varia entre tortura psicológica e ameaça. Seguimos.

Chega o mês previsto para entrega do projeto, ou seja, a data do parto tá quase. Yoga, pilates, drenagem, Kegel, massagem perineal, respiração, leitura de textos sobre sono, rotina e amamentação, lavar-passar-dobrar roupinhas (e refazer tudo por insegurança), fazer a mala da maternidade e dirimir a ansiedade das famílias está na pauta, com força total. Tudo é mandatório. Mas a tal data não chega nunca. E, quando chega, no geral - dados apontam que em 99,9% dos casos - tipo nada sai conforme o planejado. O bebê nasce no dia e hora, e do modo que ele escolheu. Começa, então, o módulo "Exercício do descontrole"...

Esse módulo tem 191764591762 horas, ou seja, você o fará para sempre. No começo, consiste em não controlar horários de mamadas nem tempo de sono. Depois, os desafios aumentam. Por mais que você planeje, o projeto tem uma vida própria e decide fazer cocô explosivo no minuto que você abriu a porta para ir ao pediatra; ou acordar no momento que costuma dormir, inviabilizando seu almoço. Quando me sinto treinada para todo e qualquer imprevisto, ele muda o padrão novamente. É que essa matéria visa deixá-la totalmente preparada, e com baixa expectativa. Sei que vai valer a pena. É bom estar bem treinada até a adolescência, quando terei que lidar com sumiços, baladas de madrugada, namoradas e afins. Ui.

O MBA é intenso, 24/7, sem intervalos. Tem ondas mais tranquilas e fases que simulam tsunamis. "Não vou dar conta" é um sentimento comum entre essas participantes. E bem naquele dia que só chorei de desespero e cansaço, e quase tatuei "não vou dar conta", e me vi com o mesmo pijama e sem lavar o cabelo há 3 dias, que o bebê sorriu pela primeira vez, ou bateu palminhas - você esquece na hora a dificuldade. E, lembre-se, o módulo segue durante todo MBA da maternidade, é obrigatório para ser aprovada nas outras disciplinas.

Enquanto essa está em andamento você já iniciou, quase sem perceber, um Master em Gerenciamento do Tempo - consiste em fazer mais do que duas coisas ao mesmo tempo, definir prioridades sem apego, focando na entrega e um pouco menos nos processos envolvidos. Exemplos reais: não é possível refletir sobre o cardápio, é preciso comer o que tem, e rápido; como também esqueça a preocupação ecológica e lave aquela máquina de roupas mesmo sem ela estar full - sabe Deus quando você conseguirá lavar roupa de novo. Essa habilidade, depois que conquistada, será útil não apenas em casa, mas altamente aplicável no mercado de trabalho. Seguimos.

Falando nisso, está chegando o fim da licença-maternidade (algumas almas pobres chamam de "férias", e eu desejo o inferno a elas sem culpa) e momento da volta ao escritório. Firme, forte e segura, com um esquema digno de War montado, o dia chega... Você acorda 3h antes do normal e sai atrasada. O bebê vai gorfar na sua camisa no dia que você tem uma reunião importante (e óbvio que a roupa está acumulada, lembra? Então você vai com uma roupa bem meia-boca, mas nem liga - não dá tempo). Fiquei sabendo que se lidarmos bem, ótimo, significa bom andamento do Programa de Desapego do Controle; do contrário você vai chorar e esbravejar, gritar com tudo e todos, e depois sentir culpa por não se aplicado mais na repetição do mantra "aceita, que dói menos". No trabalho, suas novas habilidades construídas durante a gestação e primeiros seis meses vão assustar os colegas que esperavam uma mãezinha no retorno. É Mãe, em caixa alta, e com um MBA em curso! Respeita, pô. Provavelmente você vai ter (ou arrumar) tempo para responder a todos os emails, tomar cafés, organizar as gavetas, fazer mercado no almoço, e ainda babar nas fotos da cria - e ordenhar um LM nos intervalos, por que não?!


O aniversário de 1 ano de projeto se aproxima, e, me sinto mais segura e confiante. Mas fiquei sabendo que os desafios estão longe de acabar. Os saltos e picos vão sumir da tabela, mas continuarão acontecendo - porque agora é sem apostila. Você saberá os identificar no feeling (outros sintomas são choro, mudança de personalidade da criança e sono picado). A sociedade começa a pressão (sem embasamento teórico) pelo desmame. Nessa hora, me inscrevi no workshop opcional "Como fazer cara de alface para pitacos sem-noção" - e olha, vale a pena. Na sequência, começa uma greve alimentar de deixar qualquer ser humano yogue de cabelo em pé - volte para o mantra "aceita, que dói menos". O projeto simplesmente não come, e você não entende por que, e ele continua crescendo.

O mantra acima começa a ser aplicado também no módulo Sexto Sentido - você sabe que a cria vai cair, vê caindo, em câmera lenta, e muitas (todas) vezes não consegue fazer nada para evitar o galo. Nessa fase é esperado que você já saiba lidar bastante bem com febres misteriosas, manchas de leite e cocô nas roupas, noites em claro, e também, claro, os sorrisinhos e mãozinhas mais fofos do mundo, além de beijos babados e algumas palavrinhas balbuciadas. O primeiro ano está quase no fim e seu Projeto evolui diariamente. Melhora a coordenação motora, fala cada vez mais, entende o que você fala, começa a correr, comer sozinho, conquistar uma certa autonomia. Tem horas que você não vê o dia de entregar um TCC - aquele dia que o projeto se limpará sozinho, dormirá a noite toda tranquilo e poderá brincar (ou ler, ou jogar videogame, ou tomar banho sozinho) enquanto você cozinha ou vê um filme. Mas também tem muitos momentos de "eu queria estar admissão ainda e voltar esse projeto pra barriga...".

Nessa hora, vale lembrar, você não tem mais orientador nem incentivador. Quem te liga sequer quer saber de você; só do projeto. Seu celular só tem foto do projeto. Você faz basicamente tudo pensando no projeto, e ninguém nunca mais te trouxe um doce que você gosta, como era na gravidez. Seu corpo tá quase normal e você voltou a ciclar, então no período fértil fique atenta: seus óvulos e essa saudade da primeira gestação podem te confundir e você acabar encomendando um segundo projeto...

Com a proximidade dos dois anos do bebê, da noite pro dia você percebe que o curso evoluiu rápido, e começa a fazer um PHD em Negociação. Os tais terrible two (ou wonderful twos) são reais. É lindo e assustador; o bebê vai ficando autônomo e sabe por a roupa sozinho, e a gente baba, mas ao mesmo tempo quer ir de pijamas na festa de gala ou no evento do seu trabalho. Exercitar a paciência (lembra do fim da gravidez?) volta com força total. Nessa fase, os livros da ONU sobre negociação/paz mundial etc podem ajudar. O projeto fala "esse não", "não qué", sai correndo pelado, joga comida do prato. Você negociará desde a estampa da camiseta até o corte da maçã, visando cumprir os objetivos básicos - vestir razoavelmente a cria e mantê-la alimentada e hidratada.

Chegam os 2 anos, seu projeto ama a festinha dele, sopra vela, puxa a galera pra cantar parabéns duas vezes e seu coração explode de amor... E há outras coisas muito boas nessa fase: seu bebê corre pra te abraçar, te beija, faz carinho, fala "mamain" do jeito mais fofo do mundo, da mais e mais beijos babados. O amor só cresce. E só tende a crescer.

Obrigada, filho, por esses 25 meses de MBA. Sou uma mulher-mãe-esposa-ser-humano melhor, e ainda tenho tanto a aprender com você. Seguimos! 

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