Ontem eu gritei com você. Mais que isso, eu vociferei um NÃO em caixa alta, eu rosnei. Eu saí de mim, tive um ataque de nervos e berrei com você como se você estivesse em outro extremo de uma praia barulhenta. Foi horrível. Na hora, eu simplesmente reagi como um bicho. Um bicho faminto amedrontado. Foi horrível.
O motivo é ridículo. Me envergonha. Você tinha vindo cansado da escola, mas bem humorado. Te dei banho depois de você tentar me enrolar miando e dizendo que gatos não tomam banho todos os dias. Lavamos o seus cabelos com dois xampus que você adora, o azul e o vermelho, e você ficou super cheiroso. Te vesti já com a camiseta da escola, pra que não passasse frio na manhã seguinte. Te penteei, conversamos. Fui à cozinha e fiz uma crepioca de banana com canela que você adora, e você comeu inteira.
Aí começou a fungar. Tentei te convencer amorosamente de todos os jeitos que colocar um soro no nariz era o melhor jeito. Mostrei duas opções, pinguei na sua mão e você, nada. Tentei por meio à força, e nada. Você estava irredutível. Coloquei no meu nariz então. Você, irredutível. Até que pegou o rinossoro novinho e virou todo o líquido em cima da sua Leia e no chão. Eu enlouqueci.
É banal. É pequeno. Eu saí do quarto brava, entrei no banheiro pra pegar uma toalha, sequei a zona enquanto você chorava. Te deixei ali uns segundos pra me acalmar. Percebi a merda que eu tinha feito, e voltei. Acendi a luz. Te peguei no colo. E caí eu no choro, de soluçar. Eu to tão cansada, filho. Te falei isso. Eu sei que foi banal. Que foi pequeno. Foi a gota que transbordou o copo. Seu pai disse que eu não posso perder a paciência com você - e eu concordo. Te peço desculpas de coração. Não justifica, mas te peço desculpas.
E quero aproveitar e te dizer que sou humana. Eu sei, às vezes não parece. Mães fazem tudo, dão conta, se preocupam, agem, planejam, trabalham dentro e fora de casa e ainda criam historinhas pra vestir os filhos, antes de encarar a maratona de fazer dormir. Mas eu sou humana. E humanos podem sim perder a paciência. Sentir raiva. Chorar. Se frustrar. Se irritar. Se cansar. Até errar. E depois se arrepender, e se desculpar.
Me desculpe, filho.
Meu amor por você nunca vai acabar. É infinito e incondicional. Espero que me perdoe pela reação, e que me enxergue como humana.
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